A Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Cabeção foi fundada nos últimos anos do século XVI, estando documentada desde 1595, a igreja foi erguida à sua consagração em 1600, com o consentimento do arcebispo de Évora D. Teotónio de Bragança.
É uma igreja que apresenta uma arquitetura modesta que já sofreu algumas remodelações, uma das quais em 1752, data que se encontra inscrita sobre a porta de entrada em numeração romana e a encimar a mesma temos a figura de Cristo Redentor.
No interior, as paredes laterais da nave são revestidas com 12 pinturas murais que retratam cenas da vida de José do Egipto, quase todas legendadas, com duas campanhas sobrepostas, mas com a mesma temática. Os trabalhos nas pinturas murais foram concluídos em 1630 e renovados em 1802, estas datas encontram-se inscritas sobre a parede fundeira da nave. A autoria das pinturas murais da Árvore da Ordem de São Francisco de Assis e de Jessé, bem como das Obras de Misericórdias Corporais, é atribuída a José de Escobar, já as pinturas sobre a vida de José do Egipto são de autor desconhecido, possivelmente de um dos seus aprendizes, uma vez que evocam em parte o estilo de Escobar.
Com o passar dos anos, a Igreja da Misericórdia passou por diversas obras de restauro, a mais recente em 2020 com o apoio do Fundo Rainha D. Leonor, que restaurou grande parte das pinturas murais, que se encontravam já um tanto degradadas.
O Hospital, o edifício anexo à esquerda, foi outrora conhecido como o Hospital da Santa Cruz, é um edifício de pequenas dimensões e foi bastante remodelado no século XX, serve atualmente como um centro de análises clínicas para a população de Cabeção e possui uma entrada para a igreja.
Este edifício anexo à igreja teve à sua origem numa antiga hospedaria, principiada à custa das esmolas do povo e para se concluir, os moradores da vila tiveram que pedir a mercê a D. Filipe I de Portugal (D. Filipe II de Espanha), que lhes concedeu o privilégio em 1597, do qual se fez uma pequena escritura que se encontrava no cartório da igreja e que desapareceu posteriormente. Quando foi consagrado era dotado de tudo o que era necessário e só servia para nele dormirem alguns peregrinos.
Interior da Igreja da Misericórdia de Cabeção
Árvores Sagradas
A parede fundeira da nave da igreja (a parede da porta de entrada) tem um conjunto de pinturas murais com a representação da Árvore da Ordem de São Francisco de Assis (à esquerda) e da Árvore de Jessé (à direita). Na Árvore da Ordem de São Francisco de Assis temos a representação do mesmo, onde este surge reclinado sobre uma pedra, com uma árvore a crescer do seu corpo, onde aparecem 12 frades franciscanos nos seus galhos e no topo um crucifixo, representando a árvore da família franciscana. Já na Árvore de Jessé temos o mesmo reclinado sobre um manto branco, com uma árvore a crescer do seu corpo, donde surgem 12 reis e no topo a Virgem com o Menino, representado a árvore genealógica de Jesus.
Pinturas Murais de José do Egipto
A história de José do Egipto, como assim ficou conhecido o filho preferido de Jacó, é contada em 12 pinturas murais e é citada no Antigo Testamento em Génesis 37.
O favoritismo de que era alvo por parte do seu pai, valeu-lhe a inimizade dos seus irmãos, que o venderam como um escravo aos ismaelitas, que o levaram para o Egipto. No Egipto, José foi comprado por Potifar, um oficial e capitão da guarda do Faraó, de quem rapidamente conquistou a confiança e tornou-se dirigente dos criados e administrador da sua casa. Na casa de Potifar, estudou com um escriba e aprendeu a língua egípcia, mas foi preso após uma acusação injusta de tentativa de abuso da mulher do seu amo, após uma tentativa frustrada de sedução por parte dela.
Durante o seu cativeiro, José tornou-se conhecido como intérprete de sonhos, tendo sido chamado pelo Faraó para interpretar um sonho que este havia tido. O Faraó, satisfeito com a interpretação dada ao seu sonho, nomeou José como governador do Egipto. Após o encontro com os seus irmãos, José perdoou-os e arranjou as melhores terras do Egipto para que a sua família morasse nelas.
Cadeiral dos Mesários
No lado da Epístola (lado direito), encontra-se um cadeiral dos mesários de finais do século XVIII, decorado com elementos de inspiração natural e cuja colocação levou ao fecho da porta lateral da igreja. O lugar do provedor destaca-se por ser o mais largo, o mais alto e o mais ricamente decorado.
Púlpito
No lado do Evangelho (lado esquerdo), encontramos um púlpito de bacia de seis faces apoiado numa coluna, este é encimando por um painel pintado com a Pomba do Espírito Santo e era acedido a partir do hospital.
Arco Triunfal
O arco triunfal tem uma representação temática típica das misericórdias, com a representação de uma Pietá (ao centro), onde a Virgem surge junto à haste da cruz com Cristo nos braços, a ladeá-la temos São João (à esquerda) e Maria Madalena (à direita), enquadrado esta pintura, aparecem dois anjos e mais abaixo as figuras da Justiça (à esquerda) e da Misericórdia (à direita), nas colunas surgem as figuras teológicas da Fé (à esquerda) e da Esperança (à direita).
Obras de Misericórdias Corporais
A capela-mor, com as suas paredes laterais pintadas de rosa, é coroada no seu teto com várias pinturas murais, estas formam quatro painéis, separados por um quinto, central e oval, nos quatro painéis figuram Obras de Misericórdia Corporais: “Vestir os nus” e “Dar de comer a quem tem fome” (à esquerda) e “Dar de beber a quem tem sede” e “Visitar os cativos” (à direita), este último com a representação da visita a quem está preso, dando-lhe de comer e de beber, em cada um dos painéis, em cada ângulo, aparece Cristo a abençoar. No painel central, surge Cristo com o cordeiro.
Retábulo-mor e Mesa de Altar
Ainda na capela-mor, encontra-se um retábulo-mor maneirista, com três eixos, lavrado em talha dourada e colorido, que conserva o políptico de pintura a óleo do ciclo maneirista com cenas da Vida de Nossa Senhora. Por debaixo das colunas que adornam o altar, a predela está revestida com pinturas murais com a representação dos Instrumentos da Paixão de Cristo, como a coroa de espinhos e a túnica púrpura.
Cada um dos eixos possui um painel pintado representando a “Adoração dos Pastores” (à esquerda), a “Visitação” (ao centro) e a “Anunciação” (à direita) por debaixo destes, surgem as imagens de Santa Apolónia (à esquerda), Santo António (ao centro) e Santa Bárbara (à direita). A mesa de altar tem a forma de uma urna e é revestida com ornamentos do estilo rococó.
Sacristia
Na parede do lado do Evangelho (lado esquerdo) da capela-mor, há uma entrada que leva à sacristia. A sacristia, com as suas paredes laterais pintadas de branco e teto plano pintado de rosa, é coroada ao centro do seu teto com o Brasão de Armas de Portugal. Neste espaço podemos encontrar um arcaz do século XVIII e à direita deste um lavabo, uma fonte, cuja boca tem a forma de um rosto humano. A sacristia possui também uma entrada para o hospital.
Trabalho de pesquisa: Ivo Barros
Fotos: Ivo Barros